O texto abaixo foi produzido a partir das aulas da oficina de “Comida & Literatura” – São Paulo / março, 2011 (www.oficinadeescritacriativa.com.br). Fala de vatapá, uma comida típica da Bahia, que faz parte da cultura culinária baiana. Fazemos vatapá nas 6as feiras e em datas festivas, especialmente na 6ª feira da Paixão e na festa de Cosme e Damião. Vatapá também é uma comida diária do baiano, pois é o recheio do acarajé e do abará. Amanhã, 6ª feira da Paixão, irei repetir a tradição herdada da minha mãe, fazendo vatapá no mesmo ritual praticado por ela, sem receita, usando olho, mão e intuição. A receita será publicada no blog.
Vatapá, Minha Paixão!
Faz-se da farinha de guerra, da farinha de trigo, até da farinha de milho, tem muita sugestão.
A farinha de milho, por ser amarela, já ajuda na cor, mas não acredito no sabor, no sabor do vatapá feito da farinha de milho. Vatapá de verdade, o que me foi dado no berço, deve ser feito de pão.
Pão cacetinho, francês no sudeste, pão dormido, para encorpar melhor o caudaloso leite de coco e alegrar nosso coração.
E mistura-se tudo batendo no liquidificador. Pão encharcado de leite de coco, amendoim, castanha, cebola, cebolinha, gengibre, coentro, tomate, azeite doce, muito camarão seco e pimentão.
A massa perfumada pelos temperos, ainda branquinha, vai ao fogo alto, sempre mexida por uma grande e ágil colher de pau, colher mágica da transformação, uma varinha de condão.
Vatapá lá em casa tem sabor de festa. Comida trabalhosa feita em datas especiais, nos aniversários, batizados e na sexta feira da paixão.
E quando a massa começar a saltar da panela, tá na hora de jogar o ouro amarelo, o azeite de dendê, medido no olho e na mão.
Depois de quase pronto, ainda no fogo, recomenda-se misturar à massa amarelo ouro uma generosa porção de ensopado de galinha caipira, feita com gengibre, dendê e muito camarão.
Pronto o vatapá, servimos acompanhado de arroz branquinho e uma faísca de pimenta malagueta. E na emoção da degustação, na mistura dos sabores e na maciez da textura, sinto-me embriagado de uma felicidade sensorial, recheada de afeto, carinho, calor e paixão.